Centro de Estudo e Pesquisas Clínicas de São Paulo

Prof. Dr. Zan Mustacchi

Estimulação Essencial

Baseados em evidências de sólidos fundamentos científicos, relacionados à necessidade da estimulação essencial (outrora definida como estimulação precoce), grupos de especialistas do Centro de Estimulação Essencial – CEE do Centro Israelita de Assistência ao Menor – CIAM abordam de maneira sistemática o conceito atual desta atenção, seja na organização de serviços, na elaboração de programas de intervenção com a família, no papel dos profissionais ou na avaliação crítica sobre os programas. Este é comprovadamente um importante desafio para o prognóstico de crianças de 0-4 anos que sofreram fatores de risco ao nascer, como: comprometimento neurológico, metabólico, malformação congênita, síndrome genética ou então qualquer outro motivo que prejudique seu desenvolvimento neuropsicomotor.

A melhor estratégia dentro deste campo deve se basear na evolução funcional, vinculada às variáveis ambientais. Por meio da experiência e da investigação, o empenho deverá se pautar no reconhecimento e na consideração de situações que muitas famílias têm vivido, partindo-se dos problemas que durante anos fazem parte do seu cotidiano.

É importante assegurar à criança a disponibilidade dos serviços de que necessita, para que possa haver um maior grau de integração social. Assim, ao invés de enfatizar o desenvolvimento de suas funções seletivas, é indicado que sejam desenvolvidas principalmente suas funções integrativas, criando-se oportunidades para a educabilidade de crianças com deficiência, a otimização de sua realização social, e lembrando-se que um eventual futuro insucesso escolar poderá se transformar em insucesso social, que deságua na delinqüência e até mesmo na piora de problemas relacionados com a saúde mental.

A falta de informação de profissionais, como médicos e terapeutas, acaba por adiar o encaminhamento precoce dessas crianças aos centros de estimulação, pois isto só costuma ocorrer quando o quadro patológico inicia sua expressão clínica de forma evidente. Quase sempre são os pais que percebem algo de errado e só então estas crianças são encaminhadas para estimulação. Esta demora em iniciar a ação prejudica não só o nosso trabalho como terapeutas no desenvolvimento e estimulação neuropsicomotora, como também o desenvolvimento do potencial cognitivo da criança. Em alguns casos, recebemos crianças em que deformidades já estão se instalando e, portanto, com seus potenciais já comprometidos.

A estimulação iniciada com os programas de intervenção essencial tem sido, acima de tudo, a responsável pela recuperação evidente e pela adaptação favorável dos pacientes. Mostrar aos pais possibilidades de mudança, com o envolvimento de profissionais capacitados e criativos, entendendo-se, pois, que uma intervenção completa tem que ser resultado da programação conjunta com educadores, profissionais da área da saúde e com a família, confirma cada vez mais a idéia de que há grande benefício na atenção essencial à criança, tanto no cuidado direto do profissional, como no cuidado indireto da família.

Os profissionais que vão intervir e os métodos que serão utilizados variam em cada etapa, ajustando-se às necessidades de cada indivíduo e cada circunstância; ou seja, deve-se individualizar o tratamento e, de forma paralela, incluir outras atividades de característica lúdica, sendo conveniente estabelecer objetivos a longo, médio e curto prazo. Uma abordagem consistente requer pautas de atenção, estratégia e formas de atuar concretas, sem se perder em instruções de caráter geral pouco precisas. Técnicas e materiais devem ser utilizados de forma a favorecer a experiência direta, empenhar uma ajuda concreta e demonstrações e modelos de larga explicação, flexibilidade e adaptação de metodologia para cada momento e com objetivos em ordem crescente de dificuldade, decompondo as tarefas no passo adequado se adaptado às suas possibilidades, com uma perspectiva dinâmica para desenvolver competência de resolução de problemas.

Deve ser visto com extrema importância o apoio à criança no desenvolvimento de seus potenciais através da estimulação essencial, dando-lhe a noção da totalidade e oferecendo-lhe a possibilidade de recuperar e construir seu lugar como pessoa. É necessário para este momento de sua vida que o que lhe é ensinado e oferecido tenha objetivos que lhe sirvam aqui e agora, que tenham aplicação prática na sua vida social, que possam ser aplicados para o maior número de situações e que sirvam de base para futuras aquisições.

Se pais ou responsáveis por crianças que tenham tido uma história de internação prolongada com sofrimento, que possa levar a seqüelas com possíveis déficits, fossem informados da necessidade de procurar orientação, atendimento com avaliações periódicas e terapia em um centro de estimulação essencial, saberiam que lá suas crianças seriam acompanhadas de forma adequada, e que seriam estimuladas a dar o melhor de si como um todo e a desenvolver suas aptidões cognitivas, motoras e neuropsicológicas.

Quando apontamos na direção do desenvolvimento neuropsicomotor, a estimulação deve levar em conta os níveis de organização maturacional alcançados pela criança e suas conseqüentes possibilidades de assimilação e acomodação em relação ao objeto e objetivo que lhe é oferecido.

A situação patológica previamente observada e acompanhada minimiza o quadro futuro. É necessário orientar a mãe e a família sobre a forma adequada de relacionar-se com a criança: posicionamento no lar (adequação postural), forma de brincar, alimentar, higienizar, organizando assim a relação e estreitando o vínculo da criança com a mãe ou cuidadora. A função materna é entendida como uma estrutura interna da criança, proporcionando inconscientemente a guia para que os intercâmbios decisivos entre os dois (mãe e filho) ocorram de maneira espontânea.

Portanto, os déficits acima citados podem ser minimizados, ou até corrigidos, durante esta fase da vida, pois é nela que nosso corpo realiza maior plasticidade celular e, se estimulado, acontece maior progresso, resultando no êxito dos nossos objetivos propostos.

Uma relação integrada entre o indivíduo e seu meio é mediada por um processo sensório-neuropsicomotor. No animal, a aprendizagem é arbitrária e circunstancial, com um repertório restrito a comportamentos dependentes do instinto de sobrevivência. No ser humano, a aprendizagem depende de aspectos sociohistóricos e culturais fazendo com que este não se limite à exploração da natureza apenas como primata, mas como um transformador da natureza de acordo com a conscientização de suas necessidades, compreendendo a natureza e acrescentando algo a ela.

A criança evolui com a ação das mãos (toque), o controle dos movimentos e a ação das palavras, transformando-as em informações sensoriais de um processo cognitivo, criando a linguagem através de símbolos e gerando produtos de organização de pensamento. Entenda-se, portanto, que a aprendizagem e a capacitação com organização neuropsicomotora é a base da evolução dos seres humanos.

Bibliografia:

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  • VALLS, E. Os procedimentos educacionais – aprendizagem, ensino e avaliação. Ed. Artes Médicas, 1996.
  • AZEVEDO, M. A. P. Maternidade e transmissão cultural: o que os Guaranis, residentes na periferia da capital paulista, tem a dizer… Tese de Mestrado, Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004.

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